Histórico da Doença
A Doença Celíaca
Embora a doença celíaca seja reconhecida desde o século XI, foi somente em 1888 que Samuel Gee, um pesquisador inglês, a descreveu em detalhes e achou que as farinhas poderiam ser as causadoras da moléstia.
Em 1950, Dicke, um pediatra holandês, observou que durante a guerra, quando o pão esteve escasso na Europa, diminuíram os casos de doença celíaca. Três anos depois ele conseguiu comprovar sua teoria, deixando claro o papel do glúten (contido no trigo, cevada, aveia e centeio) na provocação da doença
O que é?
É uma intolerância permanente (por toda a vida) ao glúten, que se manifesta em algumas pessoas, crianças ou adultos, com predisposição genética. Ocorre uma grave alteração no intestino delgado que impede a absorção dos alimentos.
Quando aparece?
Pode surgir na infância, geralmente durante o primeiro ao terceiro ano de vida, ou manifestar-se em qualquer idade, inclusive no adulto.
Como se manifesta?
Os sintomas mais comuns são diarréia, emagrecimento e parada do crescimento, mas em algumas crianças podem ocorrer vômitos, anemia que não cura com tratamento, ou até mesmo "prisão de ventre", sempre associados à baixa estatura. A criança fica irritada, sem apetite, com o abdome distendido e bastante emagrecida, com sobras de pele, principalmente nas nádegas. O adolescente costuma ter pouco ou nenhum sintoma.
O que é o "glúten"?
É uma proteína que está contida no trigo, aveia, cevada e centeio e todos os alimentos fabricados com esses cereais. A sua fração mais tóxica para o celíaco é a gliadina.
Como se faz o diagnóstico?
A história, o exame físico e o aspecto da criança são muito sugestivos. Além disso são feitas as provas para averiguar se o intestino está ou não absorvendo alimentos:
Curva de sobrecarga de triglicerídios
Com uma colheita de sangue em jejum e outras 2 e 4 horas depois de a criança comer uma quantidade padronizada de margarina. Se não houver um aumento de triglicerídios (gordura) no sangue de 65 mg % ou mais, significa que a criança não está absorvendo a gordura.
-Prova de absorção da D-Xilose
É um açúcar dissolvido em água, que a criança toma e será dosado no sangue depois de uma hora. Se encontrarmos valores menores que 20mg% significa também que o intestino não está absorvendo alimentos de modo ideal e reflete as alterações que veremos adiante.
Esses dois exames podem estar alterados em qualquer doença diarreica, isto é, eles não confirmam o diagnóstico de doença celíaca.
- Dosagem de anticorpos séricos antigliadina.
É colhido sangue para verificar a quantidade de anticorpo (reação ou defesa) que o paciente tem contra a gliadína, isto é, contra a proteína que "ataca" seu intestino. Esse anticorpo pode ser da classe IgG e IgA. Quando IgG for maior que 3 e IgA maior que 1, levantamos uma forte suspeita de doença celíaca.
A dosagem desses anticorpos também é importante como controle, pois após 2 meses de dieta correta eles já devem estar negativos ou bastante baixos.
Mas o diagnóstico de certeza só é obtido por meio de biópsia intestinal. Esta é feita com cápsula de Watson.
Não é necessário anestesiar a criança, pois o exame, embora não seja agradável, não é doloroso e é praticamente isento de riscos e complicações. O paciente deve estar em jejum por 4 a 6 horas, para que restos de alimentos não entupam a cápsula.
A - O que nos mostra a biópsia?
O intestino normal, quando visto ao microscópio, apresenta um pregueamento alto e afilado, chamado vilosidade. As células das vilosidades são as que tem capacidade de digerir o alimento que aí chega e absorvê-lo.
No paciente com doença celíaca, como seu intestino foi agredido e danificado pelo glúten, essas vilosidades não existem. Portanto, o alimento que chega ao intestino não consegue ser digerido e absorvido. Neste caso, quando olhamos ao microscópio vemos uma imagem que chamamos de mucosa "careca" pela atrofia praticamente total das vilosidades.
Como se trata a doença celíaca?
O único tratamento é a dieta, pelo resto da vida.
O glúten não pode ser mais consumido pelo paciente, criança ou adulto. Qualquer quantidade é prejudicial, mesmo que seja "um pedacinho" de pão.
Quando se inicia a dieta isenta de glúten a melhora é rapidamente notada. Em poucas semanas ou dias, aumenta o apetite da criança, pára a diarréia e ela engorda e muda o humor. A aceleração do crescimento é mais lenta e só se nota após 2 ou 3 meses. O intestino se recupera completamente.
Depois de 1 ou 2 anos dosamos novamente o anticorpo antigliadina e seus valores devem ser negativos e uma Segunda biópsia mostra que o intestino está normal, confirmando assim o diagnóstico
No início do tratamento, pode ser necessário o uso de ferro para corrigir a anemia e as crianças menores, que fazem uso do leite, podem temporariamente utilizar fórmulas isentas de lactose.
Por quanto tempo se faz a dieta?
Como já foi salientado quando se confirma o diagnóstico, a dieta é para o resto da vida.
Se o tratamento não for seguido a criança poderá apresentar graves crises de diarréia (que podem levar a morte) crescimento deficiente, anemia, atraso na puberdade, alterações dentárias e, na idade adulta , esterilidade e risco grande de desenvolver câncer no intestino.
Aparentemente, o tratamento teoricamente tão simples encontra, na prática, alguma dificuldade para ser executado, visto que familiares e pacientes poucas vezes se concientizam do risco que o pão, bolacha, macarrão, etc (enfim, tudo que vem do trigo, aveia, cevada e centeio) pode acarretar, oferecendo ocasionalmente tais alimentos aos pacientes, impedindo ou retardando a cura. Além disso, dificuldades financeiras induzem à transgressão pois os alimentos proibidos são os de custo mais baixo. Em países de 1º mundo o governo fornece um auxilio alimentação ao paciente celíaco até os 21 anos de idade.
Por outro lado, a forte pressão que sofremos da propaganda de alimentos industrializados nos leva a consumir tais produtos, cujos rótulos nem sempre contém a composição ou esta não é clara, embora a Lei 8543 de 23 de dezembro de 1992, determine a impressão de advertência em rótulos e embalagens de todos os alimentos industrializados que contém glúten.
Quando surgir alguma dúvida consulte um especialista para esclarecê-la. Não ofereça alimentos sobre os quais não tem segurança da permissão. Não aceite conselhos de amigos e parentes de que "só um pouquinho" de glúten não faz mal. Esclareça a escola ou a creche sobre a dieta de seu filho.
Não considere, porém, que seu filho é uma criança "anormal" e não pode participar das atividades normais. Ao contrário, ele pode e deve participar de atividades esportivas, festas, passeios, etc. Só não se esqueça de recomendar-lhe que não coma os alimentos proibidos. Ele tem capacidade de compreender. Existe na Europa uma regulamentação que obriga os alimentos industrializados isentos de glúten a trazerem no rótulo um símbolo internacional:



